Organizar o enxoval é muito mais do que selecionar e comprar as peças que vão receber o bebê no começo da vida. Hoje muito se fala sobre essa experiência. Entre baby shoppers, influenciadores, especialistas e psicólogos, não são poucas as vozes que se avolumam no afã de orientar pais e mães de primeira viagem na tarefa hercúlea de organizar a base material da rotina dos primeiros meses.

Onde comprar, quanto comprar, em quais tamanhos? Berço ou cama montessoriana? Quantos bodies, mantas ou toalhas? Essas são algumas das dúvidas que perpassam o cotidiano daqueles que aguardam ansiosos a chegada do primeiro filho. O problema é que, quanto mais procuramos respostas definitivas, mais facilmente o enxoval se transforma numa lista abstrata de objetos, como se existisse uma quantidade universalmente adequada de coisas capaz de preparar qualquer família para a chegada de qualquer bebê.

É justamente aí que as listas genéricas mostram sua insuficiência. Não porque sejam necessariamente equivocadas, mas porque oferecem uma resposta anterior à pergunta mais importante. Antes de saber quantos bodies serão necessários, é preciso compreender como será a rotina em que esses bodies serão usados. O clima, a temperatura da casa, a época do nascimento, a possibilidade de lavar e secar roupas e os hábitos daqueles que cuidarão do bebê alteram aquilo que pode ser considerado necessário. Uma lista pode estabelecer uma média, mas nenhuma média consegue antecipar a singularidade de um bebê e do ambiente no qual ele será recebido.

Além dos aspectos materiais envolvidos, existem também aspectos afetivos diretamente relacionados ao enxoval. Isso porque organizar os elementos básicos da futura rotina do bebê constitui um dos primeiros passos na progressiva tarefa de criar identificação com as necessidades sensíveis daquele que está para chegar ao mundo. Segundo Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, essa capacidade de identificação constitui uma dimensão fundamental da maternidade suficientemente boa. O enxoval participa desse processo porque, enquanto escolhemos uma roupa, pensamos na temperatura; enquanto organizamos o espaço de troca, pensamos no manejo; enquanto escolhemos tecidos, tamanhos e quantidades, começamos a imaginar as necessidades daquele corpo que dependerá profundamente do ambiente.

Durante a gestação, portanto, a família vai paulatinamente se preparando para esse grande acontecimento. A mudança não ocorre apenas no corpo da mulher que produz a vida em seu ventre, mas também na própria estrutura familiar. Com o bebê chegam novos ritmos, novos ciclos, uma temporalidade inteiramente outra, e preparar o enxoval significa começar a produzir condições materiais para que essa transformação aconteça sem que cada pequena necessidade cotidiana se converta num sobressalto.

É nesse sentido que podemos pensar o enxoval como parte do setting de cuidados. O setting não é apenas o quarto ou o lugar onde será realizada a troca de fraldas, mas o conjunto relativamente estável de condições que sustenta o cuidado. A temperatura da casa, as roupas, os objetos utilizados cotidianamente, a disponibilidade dos adultos, a maneira como as trocas são realizadas e a possibilidade de lavar uma peça a tempo fazem parte de um mesmo ambiente. Observados a partir da perspectiva do bebê, objetos, roupas, rotina e relações deixam de ser dimensões independentes e passam a compor uma mesma experiência.

Por isso, a qualidade desse setting é mais importante do que a quantidade absoluta de peças. Isso não significa que a quantidade não importe. Nos primeiros meses, previsibilidade é uma das chaves da rotina, e esperar que tudo aconteça para apenas depois remediar pode transformar acontecimentos ordinários em pequenas crises domésticas. Um enxoval suficientemente bom evita improvisos e permite que as trocas e o manejo do bebê sejam realizados de maneira mais suave. Se o desenvolvimento traz novidades a cada dia, o enxoval pode oferecer alguma continuidade em meio a esse turbilhão.

Mas continuidade não é sinônimo de excesso. Existe uma diferença entre antecipar o cuidado e tentar antecipar o futuro. Cada bebê é único. Variam o tamanho do corpo, a velocidade de ganho de peso, os saltos de crescimento e a permanência em cada tamanho de roupa. Um bebê pode vestir P durante meses e passar rapidamente pelo M, enquanto com outro pode acontecer exatamente o contrário. Comprar grandes quantidades de cada tamanho para se proteger de qualquer eventualidade pode produzir roupas pouco utilizadas e uma casa tomada pela expectativa de necessidades que talvez nunca apareçam.

Do outro lado, reduzir o enxoval ao mínimo possível também não resolve o problema. Um enxoval reduzido não é necessariamente um enxoval coerente. Uma família pode possuir poucas peças e ter exatamente aquilo de que precisa, mas pode também ter tão poucas que sua rotina passe a depender de lavagens constantes e de uma disponibilidade que não existe na vida concreta daquela casa. Da mesma maneira, um enxoval numeroso pode ser excessivo para uma família e adequado para outra. 

A questão não está em estabelecer se o enxoval deve ser grande ou pequeno, mas se é proporcional ao contexto no qual será utilizado. O clima, a frequência das trocas, a rede de apoio, a organização da casa e até a facilidade para comprar novas peças depois do nascimento modificam aquilo que pode ser considerado suficiente. O número, portanto, não pode vir antes do contexto.

Por isso, mais do que procurar a lista ideal, talvez seja mais interessante construir a própria lista. Para isso, não será preciso prever o futuro, mas apenas mudar a maneira como enxergamos o enxoval. Em vez de pensá-lo como uma lista de materiais que precisa ser integralmente adquirida antes do nascimento, podemos encará-lo como um conjunto de cuidados que começa a ser organizado durante a gestação e continua sendo ajustado depois que o bebê chega.

Antecipar o futuro, além de impossível, é uma das maiores fontes de ansiedade; antecipar o cuidado, por outro lado, é um gesto concreto que prepara o amanhã. Assim pensado, o enxoval possibilita o início da identificação com o bebê ao mesmo tempo em que essa identificação vai possibilitando sua própria organização. À medida que a família imagina como será vestir, trocar, aquecer, acolher e fazer dormir aquele bebê, começa também a compreender quais objetos podem tornar esses acontecimentos mais simples e contínuos.

Um bom ambiente, que começa no corpo materno e progressivamente se estende para o colo, para a casa e também para a roupa, é aquele capaz de preservar alguma sensação de continuidade diante da enorme transformação representada pelo nascimento. É aquele que procura evitar interferências desnecessárias e permite que, tanto quanto possível, o bebê possa seguir existindo sem precisar gastar toda a sua energia adaptando-se às exigências do mundo.

Talvez essa seja, no fim das contas, a diferença entre um enxoval simplesmente reduzido e um enxoval verdadeiramente coerente. O primeiro é definido pela quantidade de coisas que se decidiu não comprar. O segundo é definido pela relação entre aquilo que se escolheu ter e a vida concreta que receberá o bebê. Um enxoval coerente pode ser pequeno ou grande, mas possui uma lógica: considera o corpo que está chegando, as condições da casa, os ritmos da família e a possibilidade de adaptação depois do nascimento.

Antes de começar uma lista, portanto, talvez seja preciso começar por outro lugar. Observar a própria casa, compreender a própria rotina e imaginar, pouco a pouco, as necessidades daquele bebê que está chegando. Porque organizar um enxoval não deveria significar tentar controlar antecipadamente tudo aquilo que ainda não conhecemos, mas preparar um ambiente suficientemente estável para que, quando aquilo que ainda não conhecemos finalmente se apresentar, tenhamos espaço e disponibilidade para conhecê-lo.