Para um bebê que acaba de nascer, o mundo ainda não possui contornos nítidos. Por mais que assim nos pareça, o nascimento não é uma estreia na qual o bebê se apresenta diante de uma realidade pronta e estruturada, composta por objetos exteriores que pouco a pouco precisará reconhecer e identificar. O recém-nascido não observa a casa, as coisas ou as pessoas que o cercam como realidades independentes, que existem e permanecem mesmo quando estão fora do seu campo de percepção. O eu e o outro, o sujeito e o objeto ainda não formaram distinções que façam sentido dentro de seu universo subjetivo.
Para nós, adultos — excetuando-se os loucos e os filósofos —, o mundo é, na maioria das vezes, algo evidente. A casa em que eu moro existe fora da minha cabeça. A mesa onde trabalho continuará aqui depois do expediente. Meus amigos e familiares seguem vivos — até que se prove o contrário — mesmo quando estão fora do meu campo de visão. A realidade lá fora não desaparece quando fechamos os olhos.
Nenhuma dessas distinções está pronta no início da vida. Elas precisarão ser conquistadas lentamente. Antes que exista uma fronteira mais nítida entre dentro e fora, antes que o bebê possa perceber a mãe como alguém separado dele e antes que os objetos apareçam como partes de uma realidade exterior, existe a experiência difusa dos estados não integrados. O bebê ainda não percebe claramente as fronteiras que separam seu corpo daquilo que o envolve.
Dessa maneira, ao nascer, ele não encontra um mundo pronto e acabado. Encontra um ambiente. Ou melhor: do seu ponto de vista, ele é o ambiente.
O bebê ainda não sabe onde termina seu corpo e onde começa aquilo que o cerca. Não distingue inteiramente suas necessidades das respostas que chegam para atendê-las. Não consegue diferenciar o desconforto que sente dos braços que o acolhem. Quando a resposta chega de maneira suficientemente ajustada às suas necessidades, aquilo que o bebê encontra pode ser vivido quase como uma criação sua. Isso porque ainda não existe distância suficiente para que ele reconheça plenamente a origem exterior daquilo que recebe. Por isso, no começo da vida, sua experiência é atravessada por uma espécie de ilusão de onipotência.
Paradoxalmente, essa ilusão nos permite compreender a profundidade de sua dependência. O bebê não precisa apenas de alguém que o alimente, proteja do frio ou o coloque para dormir. Como ainda não aprendeu a separar o dentro e o fora, depende inteiramente de um ambiente que sequer pode ser reconhecido como exterior.
Quando falamos sobre o ambiente do bebê, é fácil imaginar o quarto, a iluminação, os sons da casa, a temperatura ou os objetos escolhidos para recebê-lo. Tudo isso importa, mas, nos primeiros meses, o ambiente é algo ainda mais elementar. O ambiente é o conjunto dos cuidados que chegam ao bebê antes que ele possa reconhecê-los como algo vindo de fora.
É a maneira como seu corpo é sustentado. É a delicadeza com que ele é retirado do berço, levado ao colo, trocado e vestido. É a capacidade de responder sensivelmente às suas necessidades sem obrigá-lo a reagir continuamente a falhas excessivas.
Donald Wood Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, descreveu três dimensões fundamentais do cuidado que constitui o primeiro ambiente do bebê: a sustentação, o manejo e a apresentação de objetos.
A sustentação não se resume ao ato físico de segurar o bebê. Ela inclui a continuidade do ambiente: uma proteção suficientemente boa contra acontecimentos aos quais ele ainda não possui condições de responder sem ser interrompido em sua experiência de existir.
O manejo diz respeito à forma como o corpo é manipulado. A maneira de tocar, movimentar, higienizar e vestir participa lentamente da construção de uma relação entre a vida psíquica e o corpo.
A apresentação de objetos acontece quando aquilo que o bebê necessita surge de uma forma suficientemente ajustada, quase espontânea. O alimento, por exemplo, não aparece apenas como uma coisa externa oferecida por alguém, mas pode ser vivido quase como uma criação própria do bebê, encontrado no instante em que começa a ser necessário.
Sustentação, manejo e apresentação de objetos não são atividades isoladas que, somadas, constituem um repertório técnico. Elas oferecem as condições para que o processo de amadurecimento não seja precocemente interrompido.
O ambiente facilidador é fundamental para o desenvolvimento, mas não podemos esquecer que existe no bebê uma tendência inata ao amadurecimento. Isso significa que seu desenvolvimento não precisa ser fabricado pelos adultos. Mas essa tendência tampouco se realiza isoladamente.
Ao reduzir interferências desnecessárias e ajustar-se sensivelmente às necessidades dos primeiros meses, o ambiente facilitador permite que o bebê caminhe gradualmente de um estado inicial de não integração em direção a uma experiência mais integrada de si.
Pouco a pouco, aquilo que estava disperso começa a adquirir continuidade. O bebê passa a habitar o próprio corpo e uma fronteira começa a se formar entre dentro e fora. A partir daí, a experiência de existir começa a ganhar consistência. O ambiente suficientemente bom, cria as condições para que o bebê deixe gradualmente de se confundir com aquilo que o sustenta e comece a perceber o mundo como uma realidade exterior. Por isso dizemos que a boa dependência não aprisiona, ela prepara as condições para uma separação saudável.
Dizer que o ambiente precisa estar ajustado ao bebê não significa defender uma forma perfeita de cuidado. A perfeição não seria apenas impossível, mas também desnecessária e, até certo ponto, nociva aos processos de amadurecimento. O bebê não precisa ser protegido indefinidamente de qualquer frustração. Ao longo do tempo, pequenas falhas passam a participar de seu desenvolvimento. A adaptação da rotina da casa às suas necessidades mais estritas pode diminuir gradualmente, à medida que ele adquire condições para lidar com aquilo que antes seria excessivo.
Mas existe um tempo para isso.
Nos primeiros meses, quando o bebê ainda não dispõe de uma experiência integrada de si nem de recursos suficientes para elaborar as interrupções, a qualidade do ambiente depende de uma adaptação particularmente sensível às suas necessidades.
O cuidado suficientemente bom reconhece essa diferença. Não exige precocemente que o bebê se adapte ao ritmo da casa, aos compromissos dos adultos ou à ansiedade de produzir rapidamente cada nova conquista. Durante algum tempo, faz o movimento inverso. É o ambiente que tenta se ajustar ao bebê. É o mundo que diminui o passo.
Na maioria dos casos, a mãe possui condições suficientemente boas para oferecer ao bebê esse primeiro ambiente. Isso não depende de preparações teóricas ou práticas excessivamente elaboradas, mas de uma sensibilidade que se constrói na própria relação com ele: na possibilidade de identificar-se com suas necessidades e ajustar-se delicadamente aos seus ritmos.
Mas quem sustenta também precisa ser sustentado. A possibilidade de dedicar-se sensivelmente às necessidades do bebê depende também de que a mãe não atravesse sozinha uma tarefa tão exigente quanto passageira. Afinal, para que o bebê possa começar a existir, é preciso também sustentar os braços que o sustentam.
