O desenvolvimento do cérebro humano nos primeiros anos de vida é algo realmente assombroso. Durante a primeira infância, o cérebro não está apenas crescendo, está construindo, em uma velocidade difícil de imaginar, as conexões que vão sustentar formas de vida cada vez mais complexas. Formas de sentir, de perceber, de aprender e de pensar, mas também de se relacionar e se movimentar.
A cada segundo, milhões de acontecimentos são processados nessa máquina fabulosa: neurônios se comunicam, circuitos começam a se organizar, caminhos se abrem e conexões se fortalecem para mais tarde, talvez, serem enfraquecidas ou descartadas. Como uma espécie de arquitetura viva, o cérebro não nasce pronto, é objeto de uma formação contínua.
Esse processo de formação costuma ser descrito por duas palavras que impressionam: sinaptogênese e poda neural. A sinaptogênese é o processo de formação de sinapses, isto é, de conexões entre neurônios, que são as células fundamentais do sistema nervoso. Durante a primeira infância, essas conexões se multiplicam em ritmo extraordinário. Em algumas regiões do cérebro, a densidade sináptica chega a ultrapassar a dos adultos, como se o cérebro infantil abrisse mais caminhos do que precisará percorrer e conservar ao longo da vida.
Depois, aos poucos, vem a poda neural. A palavra pode soar agressiva, mas o processo é fundamental. Podar não é empobrecer o cérebro, é refiná-lo. Conexões mais usadas tendem a se fortalecer enquanto conexões menos utilizadas podem perder força. Isto é, o cérebro não se desenvolve apenas acumulando possibilidades, mas também selecionando, organizando e tornando mais eficientes os caminhos que fazem sentido dentro da experiência vivida.
Por isso, quando falamos do cérebro do bebê e da criança pequena, falamos sempre de uma relação profunda entre maturação e ambiente. Isso porque o desenvolvimento cerebral não é um processo fabricado de fora para dentro, como se os adultos responsáveis pudessem simplesmente instalar habilidades em uma criança como quem instala um aplicativo novo em um smartphone de última geração. Mas também não é um processo meramente endógeno onde os fatores ambientais não apresentam qualquer valência. O amadurecimento emocional e o desenvolvimento cognitivo, para além da complexidade crescente de sinapses, é uma via de mão dupla na qual tendências inatas encontram, ou não, condições ambientais favoráveis.
Quando dizemos que o cérebro amadurece em relação ao ambiente estamos querendo ressaltar que o processo de amadurecimento emocional e desenvolvimento cognitivo acontece na estreita e multifacetada relação que o aparelho psíquico estabelece com tudo aquilo que lhe envolve, do corpo ao conjunto das relações sociais. Muito antes de aprender números, cores, letras ou palavras em outra língua, o bebê está sendo atravessado por experiências que ajudam a organizar sua presença no mundo. É justamente aí que a ideia de estímulo se torna tão sedutora.
A promessa dos estímulos
Diante de um cérebro que está formando conexões em ritmo tão intenso, parece quase natural concluir que devemos estimular o bebê o máximo possível. Se as sinapses estão se multiplicando, por que não oferecer mais brinquedos? Se o cérebro da criança apresenta uma plasticidade impressionante, por que não apresentar mais sons, mais imagens, mais texturas, mais músicas, mais atividades? Em suma, se os primeiros anos são tão importantes, por que não aproveitar cada janela de oportunidade para oferecer o máximo de estímulo?
Essa ansiedade nasce, muitas vezes, de um desejo legítimo. Pais e mães querem participar do desenvolvimento dos filhos. Querem oferecer boas condições e querem contribuir para que aquela criança possa crescer, aprender, explorar, comunicar-se e tornar-se cada vez mais capaz. É compreensível, mas o problema começa quando a riqueza da experiência infantil é confundida com acúmulo de estímulos.
Um bebê não precisa de um mundo pobre, silencioso, vazio e imóvel. Mas também não precisa de um mundo permanentemente aceso, barulhento, colorido e cheio de propostas. Entre a ausência de experiência e o excesso de estimulação existe uma diferença enorme e é justamente nesse intervalo que o cuidado acontece.
Estimular não é bombardear a criança com um turbilhão de propostas, não é preencher todos os silêncios com informações, nem transformar cada minuto em atividade pedagógica. Mais importante do que ensinar programação em japonês é oferecer ao bebê e à criança experiências que eles possam receber, organizar e integrar dentro de seu próprio ritmo.
Quando o estímulo vira excesso
O risco da linguagem dos estímulos é fazer parecer que mais é sempre melhor. Mais brinquedos educativos, mais músicas eruditas, mais atividades pedagógicas, mais informações, mais exercícios, mais antecipação de etapas e por aí vai… Mas o cérebro infantil não precisa apenas ser ativado, precisa ser organizado também. E organização exige repetição, repouso e tempo suficiente para que uma experiência possa ser assimilada antes que outra tome seu lugar.
Nunca é demais lembrar que bebês e crianças não se desenvolvem apenas quando estão fazendo algo visível. Elas também amadurecem quando repousam, quando observam, quando repetem uma brincadeira simples muitas vezes, quando se movimentam livremente e, fundamentalmente, quando tem tempo para permanecer em uma experiência sem que o adulto imediatamente ofereça outra.
É por isso que o excesso de estímulos pode produzir o efeito contrário ao desejado. Em vez de favorecer a atenção, pode fragmentá-la e ao invés de enriquecer a experiência, pode torná-la confusa. Em crianças pequenas, os sinais da hiperestimulação pode aparecer de formas simples e fáceis de identificar: irritação, choro, agitação, dificuldade para dormir, dificuldade para se acalmar, recusa de contato, dispersão ou uma espécie de cansaço que parece paradoxalmente vir acompanhado de mais excitação.
Repito que não se trata de empobrecer deliberadamente o universo da criança ou transformar cada passeio, visita, brinquedo sonoro ou ambiente movimentado em ameaça sensorial. A vida real é feita de variações, imprevistos e intensidades. O problema não é o estímulo em si, o problema aparece quando o excesso vira método e a criança passa a ser conduzida de uma experiência a outra sem tempo de repousar. Nesses casos, a estimulação deixa de ser uma oferta e começa a se aproximar de uma exigência.
O bebê recém-nascido e a fronteira da invasão
Quando falamos de recém-nascidos, essa questão se torna ainda mais delicada. Um bebê maior e, ainda mais, uma criança que já caminha ou fala, tem mais recursos para mostrar preferências e recusas e, ainda assim, continua precisando de cuidado, limite e mediação. Mas com o recém-nascido que está em outro ponto da vida em sua jornada de amadurecimento as fronteiras entre estímulo e excesso são ainda mais sutis.
Nos primeiros meses de vida, o bebê ainda não dispõe de uma experiência integrada de si. Ainda não separa claramente o dentro e o fora e ainda não possui recursos para organizar plenamente aquilo que o atravessa. Para ele, tudo se passa como se o seu corpo recebesse o mundo antes mesmo que ele pudesse compreendê-lo como uma realidade exterior. Por isso, nos primeiros meses, a fronteira entre estimulação e invasão pode ser muito tênue.
Nessa fase da vida, o excesso se apresenta em mínimos detalhes e aquilo que para o adulto pode parecer pouco, para um bebê que ainda está começando a organizar suas sensações pode ser excessivo. Do colo às trocas e das roupas aos objetos, qualquer descompasso entre as necessidades do bebê e as provisões do ambiente, pode soar invasivo.
Para ilustrar essa situação, o pediatra e psicanalista Donald Winnicott costumava recorrer à metáfora da bolha: dizia ele que, ao nascer e logo nos primeiros meses, “o bebê é como uma bolha. Se a pressão externa está adaptada à pressão interna, a bolha pode seguir existindo segundo o seu próprio curso. Se, por outro lado, a pressão no exterior da bolha for maior ou menor do que aquela no seu interior, a bolha passará a reagir à intrusão e se modificará como uma reação a uma mudança no ambiente e não a partir de um impulso próprio”
Em outras palavras, o recém-nascido não precisa ser apresentado ao máximo de mundo possível, através de diferentes estímulos. Precisa, antes, de um ambiente capaz de filtrar os excessos do mundo fazendo com que a introdução do bebê à realidade exterior seja sempre suave e gradual. No começo da vida, cuidar passa mais por regular a chegada do mundo ao bebê do que propriamente introduzi-lo em situações estimulantes ou desafiadoras. Nesse sentido, o ambiente suficientemente bom não é pobre em estímulos. Ele é suficientemente ajustado ao fato de que, antes de aprender sobre o mundo, o bebê precisa poder continuar existindo sem grandes interferências.
O desenvolvimento não precisa ser apressado
Uma das maiores dificuldades dos primeiros anos talvez seja confiar que nem tudo que acontece em matéria de desenvolvimento precisa ser produzido pelos adultos. O bebê não é meramente passivo, por isso seu amadurecimento não depende necessariamente de uma sequência de técnicas aplicadas sobre ele. Existe no bebê, como em todo ser humano, uma tendência viva ao amadurecimento, uma força própria de integração que o impele ao movimento, à descoberta e à relação. Por isso, o papel do ambiente e dos primeiros cuidados não é fabricar essa tendência, é facilitar seu curso. Por isso, para um bebê recém-nascido, o melhor ambiente não é aquele que tenta antecipar todas as conquistas, mas aquele que sustenta, com delicadeza, o começo de todas elas.
